quinta-feira, março 27, 2025

Dia em que Bolsonaro virou réu teve choro, reza, cercadinho e marcha fúnebre; ex-presidente se emociona com oração de Damares pedindo ajuda divina no julgamento

 

Bolsonaro se emociona com oração de Damares pedindo ajuda divina no julgamento
Imagem: Reprodução

Jair Bolsonaro assistiu ao julgamento do STF do gabinete do filho e senador Flavio Bolsonaro (PL-RJ). Transformado em réu, reencarnou a versão mito: hostil com a imprensa e propagador de fake news.

O que aconteceu

O comportamento arredio foi oposto ao adotado no começo da manhã. Militar acostumado a madrugar, Bolsonaro chegou cedo e sereno na sede do PL, em Brasília.

O ex-presidente estava com aliados próximos, alguns que costuma chamar por apelidos.

* Deputado Rodolfo Nogueira (PL-MS) ou "gordinho do Bolsonaro";

* O ex-ministro Gilson Machado ou "sanfoneiro do Bolsonaro";

* Senadora Damares Alves;

Damares resolveu pedir intervenção divina. Abraçou Bolsonaro e orou. O ex-presidente se emocionou com a senadora rogando ajuda de Deus no julgamento.

Bolsonaro 'conversou com a TV'
Bolsonaro sentou-se na ponta do sofá de couro do gabinete de Flávio. O lugar fica imediatamente abaixo de um grande quadro que mostra o filho sorrindo com a bandeira do Brasil ao fundo e o Cristo Redentor ao lado.

Posicionado bem na frente da TV, o ex-presidente prestou atenção na primeira pessoa a falar: Alexandre de Moraes. Ele parecia tranquilo na maior parte do tempo, de acordo com relatos feitos ao UOL.

* Mas houve momentos que Bolsonaro não segurou o descontentamento. Ele rebateu declarações de Moraes e rechaçou afirmações do ministro.

* O descontentamento virou contrariedade com um vídeo do quebra-quebra de 8 de Janeiro. O ex-presidente disse que Moraes mostrou cenas de destruição, mas escondeu a parte da live de 30 de dezembro, quando ele falou que a luta não acabava e a direita voltaria ao poder.

* Bolsonaro voltaria a "conversar" com a TV. Afirmou que Moraes ignorou o vídeo em que ele pediu para os caminhoneiros desobstruírem as estradas, bloqueadas após a vitória de Lula em 2022.

* Entre uma queixa e outra, houve muita conversa. A frequência de chegada de deputados e senadores aumentava conforme o julgamento se aproximava do final.

* Prestes a ser enquadrado pela Justiça, Bolsonaro saiu de frente da TV por causa de um assunto secundário. Recebeu o vereador de Salvador Cezar Leite (PL), autor de um projeto que multa em três salários mínimos quem se fantasiar de Cristo, freira ou outros temas religiosos no carnaval da cidade.

* Ao retornar o foco para o julgamento, o ex-presidente percebeu que decisões importantes precisavam ser tomadas. Vendo que os ministros não fariam pausa para o almoço, Bolsonaro e os aliados pediram comida

* Acionaram o Dom Francisco, restaurante conceituado de Brasília. O estabelecimento tem o bacalhau como carro-chefe e afirma possuir uma das "melhores cartas de vinho do Brasil"

Mas houve demora na entrega. Quando o pedido foi feito, era meio-dia e os ministros ainda votavam.

Na hora que a comida chegou, Bolsonaro já era réu. A espera foi tamanha que o julgamento acabara, o advogado do ex-presidente já havia concedido entrevista na saída do STF e chegara ao gabinete de Flávio para conversar com o cliente.

Antes de falar, Bolsonaro postou uma reportagem do jornal Folha de S.Paulo sobre o ritmo do julgamento ser mais rápido que o do mensalão. Durante o seu governo, Bolsonaro costumava atacar o jornal, mas usou a credibilidade do jornalismo para tentar rebater o Judiciário.

Cercadinho ressuscita

Bolsonaro desceu falar com a imprensa com o mau humor de quem sente fome. Encontrou um ambiente familiar à época em que foi presidente do Brasil. Um espaço cercado com jornalistas espremidos.

* O ex-presidente prometeu uma coletiva, mas fazia um pronunciamento. Não demorou para mostrar que estava nervoso e quando uma repórter tentou fazer uma pergunta e avisou que iria "estourar".

* A condição de réu havia trazido o mito à tona. Ele repetiu informações distorcidas sobre urnas eletrônicas, investigações da Polícia Federal, atacou o Judiciário, o "sistema" e a esquerda.

* As afirmações falsas dele não podiam ser rebatidas. Cada tentativa da imprensa em contestar as declarações era seguida de patadas.

* Logo, Bolsonaro perderia a linha de raciocínio. Ele havia guardado a cola que preparou. Foi a hora de Flávio entrar em cena e assoprar argumentos no ouvido do pai, que falou por 50 minutos.

* Postagens da esquerda brotavam aos milhares nas redes sociais. A deputada federal Duda Salabert (PDT-MG) foi conferir a coletiva ao vivo. Ela fez um vídeo do lado do cercadinho onde Bolsonaro se pronunciava. Ergueu o celular para Bolsonaro aparecer ao fundo e alfinetou. "Um mimimi ali atrás, virou réu e vai ser preso", disse.

Música de 2022 fecha o dia

* No final da tarde, Bolsonaro entregou o que havia prometido: uma coletiva. Nada fora marcado e ele resolveu falar na saída do Senado e sem convocar a imprensa.

* Bolsonaro reafirmou sua candidatura a presidente. Ele não conseguiu explicar como vai recuperar os direitos políticos, mas se recusou a apontar um destinatário para seu capital político.

* O ex-presidente repetiu as críticas ao STF e à esquerda. Nenhuma pergunta era evitada, mas respostas eram evasivas e a paciência estava dando sinais de falha.

* De repente, a marcha fúnebre de Chopin foi ouvida. Bolsonaro foi espirituoso, riu de forma espontânea e ficou em silêncio escutando.
A imprensa emendou perguntas e ficou no vácuo. O ex-presidente parecia hipnotizado pelo som do trompete e ironizou os jornalistas: "Cuidado, pode ser um sinal".

* A marcha fúnebre era tocada por um homem de boné vermelho. Fabiano Leitão, 45 anos, é assessor do PT e estava na calçada do estacionamento do Senado —Bolsonaro falava da entrada do prédio.

* O ex-presidente riu outra vez quando Fabiano tocou uma música que viralizou na campanha de 2022. "Tá na hora do Jair já ir embora. Arruma suas malas. Dá no pé e vá-se embora." Bolsonaro teve paciência para ouvir a pergunta derradeira da imprensa. Descontente com o questionamento, encerrou a coletiva e foi para o carro.

O dia terminava bem diferente do que começou. A serenidade deu lugar a irritação do primeiro presidente da história tornado réu por tentativa de golpe de Estado.

Por: Felipe PereiraDo UOL, em Brasília

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